Alvo Duplo (Bullet to the Head, 2012)

549871_496428800396251_1490119230_n

Direção: Walter Hill

O tempo consegue provar que muitas obras somente enriquecem com o passar do tempo, caindo como uma luva no bom e velho exemplo do Vinho; assim são muitas das que fizeram a alegria de várias pessoas nos tempos de Sessão da Tarde em meio à década de 80. Se outrora aquele tipo de filme de Ação era visto como mero entretenimento descartável, feito simplesmente para o espectador sentar-se em frente à TV, hoje é símbolo de riqueza facilmente rotulado como “Cult” — posto conquistado pela necessidade de muitos em consumir um filme de Ação sem escrúpulos, onde os protagonistas são nada menos que anti-heróis consumidos pela fúria; algo raro nos dias de hoje. O fato é que estamos em meio a um seleto revival desse estilo, e Alvo Duplo (Bullet to the Head, 2012) é fruto desse meio. Outro grande atrativo em Alvo Duplo é o retorno de Walter Hill (Os Selvagens da Noite, 1979) à direção de um grande projeto depois de dez anos.

A fórmula só poderia resultar em algo competente: para um filme à moda antiga (porém sob a ótica atual), colocaram Hill e Stallone lado a lado, duas forças veteranas dentro desse espaço. Hill expõe o seu talento costumeiro, dando espaço para a sua estética particular filmando a cidade na calada da noite, iluminada pelos bares e demais pilares de testosterona, dando ao filme a aparência de uma HQ cinematográfica (é a adaptação de uma, afinal), assim como foi feito em Os Selvagens da Noite. Sim, Alvo Duplo é um filme bruto, grosso; um bruto lapidado, sim (lapidado em termos estético-imagéticos, claro), mas bruto. Continuar lendo

A Morte do Demônio (Evil Dead, 2013)

evildeadreview__span

Direção: Fede Alvarez

Nota: Durante o texto, para não haver confusão, o filme original será chamado de Evil Dead, enquanto o 9inho será A Morte do Demônio.

Quem me conhece, nem que seja um pouco, sabe que gosto à beça de filmes de terror, e que tenho uma queda pelos trashs, B, exploitations e afins. Logo, faço parte daqueles que têm muito a agradecer a Sam Raimi por ter criado Evil Dead. Embora particularmente não o ache o melhor de seu subgênero, reconhecer sua importância é inevitável. É o principal representante do cinema trash e merece todo o respeito e reconhecimento que tem.

Eis que, lendo por aí, vejo que é anunciado um remake do clássico absoluto de 1981. É broxante ver isso. Claro, temos todos os discursos: “e daí, não irá afetar em nada o filme original”; “o original continuará lá, intocável” e outros da mesma laia. Sim, é verdade isso tudo, mas não deixa de ser desagradável ver que a onda de refilmagens está cada vez maior. Se pelo menos pegassem filmes que não deram muito certo para tentar melhorá-los seria outra história. Mas não. Preferem os Psicoses e Lolitas da vida.

De início, minha vontade de ver A Morte do Demônio estava tão alta quanto a possibilidade de haver uma partida de futebol em nome da paz entre Israel x Palestina, na Faixa de Gaza. Só que aos poucos o panorama do novo filme foi mudando. Temos nada mais nada menos que Raimi e Bruce Campbell assinando a produção. E também muitos dizendo que não seria exatamente um remake, mas sim apenas conteria alguns elementos que lembrariam Evil Dead. E o principal de tudo: elogios. Embora eu deteste basear-me na opinião alheia (o que talvez explique meu mau gosto), é inevitável você deixar de lê-las quando se acessa sites de cinema. Pois bem. Ser contra remakes muitos o são. Só que as expectativas para esse por parte de vários demonstrava-se muito alta.

Foi despertando-me uma curiosidade de ver? Admito que sim. Com ressalvas, claro. Talvez pelas propagandas. “O filme mais apavorante que você verá nessa vida”, “Um dos filmes mais sangrentos da história”, e por aí vai. De qualquer forma, lá fui eu, no dia da estreia, conferir. Continuar lendo

Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972)

last-house-on-the-left-1972-hot-best-horror-movies-ever1

Direção: Wes Craven

Wes Craven e Sean S. Cunningham, diretor e produtor deste corajoso filme, são responsáveis, respectivamente, e separadamente, por duas das mais emblemáticas franquias de terror do cinema. Não há o sobrenatural de Freddy Krueger ou Jason em Aniversário Macabro, estreia de Craven na direção. Mas aqui ele imediatamente (e grosseiramente) estabelece temas que mais tarde viriam a se tornar praticamente regras – as tentações e os riscos da sexualidade na adolescência e o uso de drogas  - dentro do gênero que ele ajudaria a popularizar. Na primeira cena, já somos apresentados a uma garota nua, Mari Collingwood, tomando banho, ocultada apenas belo box transparente do banheiro. Em seguida, ela surge para conversar com seus pais antes de ir a um concerto de uma banda na cidade grande. Seu pai pergunta: “hey, sem sutiã?” Ela responde dizendo que o jeito que sua geração trata os peitos não é como a geração deles (pais). Ela vai com uma amiga, a qual sua mãe considera má influência. Quem diria, em meio a uma época onde surgia a contracultura, o movimento hippie e tudo mais, um filme já apresentava a figura da adolescente rebelde.

Ao andar pela cidade, as meninas querem uma ervinha, para usufruir durante o show. Resultado: são sequestradas por um grupo de fugitivos, que as levam para uma floresta, para lá violentá-las, estuprá-las e, finalmente, matá-las. O carro dos assassinos quebra e eles buscam abrigo na casa mais próxima, que, por ironia do destino, é a casa dos pais de uma das meninas, ambiente do qual o espectador já possui conhecimento. Não demora muito para o casal de pais descobrir toda a história, e passar a assassinar os fugitivos, um a um, lentamente.

Situações que hoje em dia viraram clichê, não? Mas em 1972, era tudo novidade.

Baseado em A Fonte da Donzela, de Bergman, este filme mostra implicações psicológicas provocadas pela morte. No segundo ciclo de matanças do filme, ainda mais cruel e bizarro do que o primeiro, os pais cuidadosamente elaboram armadilhas pela casa e planos para fisgarem os responsáveis pela morte de sua filha.

Claramente é um filme quase B, com custos baixíssimos, feito por um diretor que abandonou uma já consolidada carreira de professor para tentar ser cineasta. Craven foi criado num severo ambiente religioso, no qual praticamente tudo era proibido (filmes, inclusive). Somente em sua época de escola que ele pôde descobrir filmes, bem como questionar valores religiosos. Fez parte de um grupo de escritas, que foi desfeito mais tarde pelo colégio quando começou a abordar temas como sexo e violência. Temas esses mostrados explicitamente aqui (embutidos na cabeça de seu idealizador, será?) de forma crua, quase nunca vista antes. Aniversário Macabro foi proibido em muitos países durante vários anos.

O clima do filme é pesadão e cru. Mas a atmosfera terrorífica entra em contraste com momentos de graça. Paralelo à vingança dos pais, temos dois policiais investigando o desaparecimento das duas meninas. Policiais atrapalhados e desleixados, que parecem ter saído do trio dos Três Patetas, ou, melhor ainda, do desenho Os Simpsons. Eu me vi presenciando o Chefe Wiggun em carne e osso. Tem também a trilha sonora do filme, que se assemelha muito a jogos do saudoso videogame Mega-Drive. Também há amor nas cenas, como os pais fazendo o bolo de aniversário de 17 anos de Mari ao som de uma música agradável(ela está aniversariando, esqueci de mencionar esse detalhe. E não estou nem um pouco a fim de editar o começo do texto).

No meu ponto de vista, não é um filme de terror. Aqui não existe suspense ou momentos que dão medo. O que dá o toque perturbador são a crueza, o realismo das cenas mais pesadas, ainda mais com o amadorismo tanto dos atores quanto da produção em geral. Como já mencionei, isso aqui é uma verdadeira comédia. Os vilões aqui não assustam, são pessoas marginalizadas comuns, cujos crimes incluem abusos e assassinatos. O líder da banda, Krug (uia. Krug, né, senhor Craven?), vicia seu filho em heroína, para que este lide melhor com ela e sofra menos. Filho este que é bonzinho, humano e piedoso, e obrigatoriamente torna-se cúmplice do que papai e o resto da “gangue” aprontam.

Em determinado momento do filme, os marginais, já hospedados na residência dos Collingwood, ridicularizam o comportamento fino dos anfitriões, que são pessoas dotadas de etiqueta: “Quem eles pensam que são? Pessoas na China comendo com pauzinhos e estes com 16 utensílios para cada coisa no prato”.

Eu pausei o filme para rir. Sério.

A divulgação do filme também é um caso à parte. O pôster do filme (o principal pelo menos) já prepara o espectador para o que está por vir. Temos simplesmente..ehr… veja você mesmo: Continuar lendo

Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977)

2072450_l5

Direção: Wes Craven

O próprio diretor Wes Craven admite que o fato de ter criado Freddy Krueger seja, provavelmente, o que venha a ser escrito em sua lápide. Tá certo, o maníaco que ataca nos sonhos, imortalizado por Robert Englund, é um dos ícones máximos dos filmes de terror. Mas mesmo assim, antes da “Elm Street”, Craven já havia apresentado horror em outras regiões. Em sua estreia, transformou uma simples casa, a Última Casa na Esquerda, num palco de vingança e violência. E até hoje seu debute é lembrado como um exercício chocante, além de um dos precursores para o rumo que o gênero tomaria na década de 70. E em seu segundo trabalho, infernizou outra família, tirando-a de sua casa e soltando-a no meio do nada, num lugar onde As Colinas Têm Olhos.

(Pensando aqui, por um segundo, que seria melhor se nosso país fizesse como a Suécia, por exemplo, e mantivesse o título original dos filmes, ao invés de traduzi-los [ou adequá-los à cara do público]).

Os Carters estão indo à Califórnia. Antes de chegar, eles têm que viajar por um deserto de Nevada para dar uma olhada em uma antiga mina de prata, deixada para eles como parte de uma herança. Apesar das advertências de um atendente de um posto de gasolina, a família vai para fora do caminho batido e acabam presos num ambiente deserto quando seu trailer quebra. O ex-policial Big Bob e seu genro Doug caminham em direções opostas, na esperança de conseguir ajuda. O restante fica, junto com os cães da família, que começam a latir e agir de um modo esquisito. Logo, fica claro que estão sendo observados por um faminto grupo de canibais.

O clima tenso, com barulhos secos e ensurdecedores, atrai o espectador. Desde o início o filme dá a sensação de isolamento, formando uma atmosfera antes mesmo de haver algum susto ou violência. Craven parte da premissa de um dos medos mais primitivos: o nada, o abandono, juntando a isso o temor pelo desconhecido. Os vilões demoram um certo tempo até aparecerem, mas antes disso nada se torna maçante ou cansativo. Continuar lendo

A Besta Humana (La Bête Humaine, 1938)

La Bete Humaine18

Direção: Jean Renoir

Inebriante e pulsante. Renoir mais do que nunca se mostrando como um precursor de neologismos cinematográficos, mas aqui não retrata nenhum auto-social (mesmo sempre que seus personagens sejam sempre movidos por impulsos passionais e à dialogos de níveis humanos). Os microorganismos comunitários são agora a mente, o corpo, o olhar, e não mais estudamos contextualizações históricas, politícas, sociais, mas sim as variáveis mais complexas que movem o mundo e seus meios, com conflitos intrinsecos, o individuo humano. O fogo sendo alimentado inaugura A Besta Humana (La Bête Humaine, 1938). E à toda velocidade, também. Renoir está sempre querendo enaltecer o que comove um momento. No inicio, em um recorte de cotidiano de um “ferroviário qualquer” intepretado por Jean Gabin e seu amigo de trabalho, acompanhamos o mecanismo de um trem em movimento, depois embarcamos nele, entramos em um túnel; à princípio ainda pouco enxergamos, depois e durante alguns segundos, nada vemos. É estar sempre à mercê, até finalmente chegarmos à um destino final.

Em A Besta Humana, o cinema vai do mais puro lúdico (de um thriller de personagens envolvendo paixão, adultério e manipulação) com o dispositivo da imagem em sua forma mais discursiva, no espectro de feições e apelos sensoriais de cinema expandido e altamente interativo, até ao ponto mais intimista e determinista de leitura, no qual entra seu aspecto mais pessoal, a união da mentira sendo dita em tela, e ao mesmo tempo com uma irônica e diabólica iluminação over no rosto da femme-fatale, que a descara sem piedade, ou em outra cena (agora sem dialogo algum) um zoom vertiginoso vai aos poucos se fragmentando (de uma imagem inicialmente embassada) em direção ao olhar cínico da personagem. A Séverine de Simone Simon, não é exatamente bonita, nem confere a simetria das bonecas de porcelana de Hollywood, mas é enaltecida à todo momento pelas conotações pervertidas (que às vezes se consumam) de Renoir – à todo tempo exalando desejo e sexualidade.

Tamanho senso de fluxo, A Besta Humana se aproxima de uma evolução de Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927), o revolucionário filme de Murnau, menos ingênuo e mais sombrio, com a espacialização de ambientes considerando sua beleza ou não, de todo modo, à exploração de sua natureza. Do universo corpulento simbólicamente conectado à todo instante com seus personagens; da lama à noite enternecedora. A trilha-sonora é à todo tempo motor ao caos labiríntico de A Besta Humana, é amor e perdição no mesmo suspiro, soa sempre intensa à medida que as notas chegam ao clímax com os pratos batendo, dimensionalmente à todo aquele inferno pessoal, assim é melodrama customizado e subvertido, descabido ao conto nada homérico, mas sempre com a mesma densidade.  Continuar lendo

Dracula 3D (Idem, 2012)

20315189_jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

Direção: Dario Argento

Dario Argento sempre foi uma estrela de cinema. Não um ator, mas sim um cineasta — o que cria toda essa aura de fascinação em torno de seu cinema. Poucos são os cineastas que conseguem conquistar a imagem de uma verdadeira estrela, esta normalmente destinada na maioria das vezes aos atores. Mas temos por aí vários outros exemplos subversivos: Brian De Palma, Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock etc. Não é questão de arrogância por parte destes realizadores (e até é, em parte — o poder adquirido resulta na arrogância, de certa forma), mas sim questão de segurança para guiar certos ideais artísticos, o que dá a vez para o sucesso. E o ego é tanto que muitos destes diretores não fazem uma boa direção de atores; inconscientemente ou não, terminam por ofuscar as prováveis estrelas que poderiam aparecer dentro de suas obras. E é o que acontece aqui, em Dracula 3D, que contém o ótimo Rutger Hauer (este interpretando o mítico Abraham Van Helsing) no elenco, mas que tem uma aparição facilmente ofuscada pelo senso estético-imagético do grande Argento. No final das contas, o filme é apenas dele.

Uma palavra para definir Dracula 3D, além de todas as suas outras qualidades: egoísta. O filme é egoísta, de fato; fato inusitado, tendo em vista que o trabalho flerta constantemente com a cultura popular, mas o que recebemos é um filme destinado a um nicho específico. E quem vem de fora deste nicho jamais saberá do que Dracula 3D é feito. Este fluxo de loucuras nasceu a partir de toda a experiência de seu diretor naquele meio produtivo que era a Europa nas décadas de 60 e 70 em relação ao Cinema Fantástico; e o que Dario Argento nos entrega é basicamente um reflexo de alguém que trabalhou lado a lado a mestres como Lucio Fulci e Mario Bava. É o passado sendo relembrado, mas sempre consciente de que os pés estão fixos no presente; e então percebemos que Dracula 3D, por mais que seja um filme que relembre o passado, é um contemporâneo filme B — o uso de efeitos de CGI toscos está aí para provar. O filme ri de si mesmo; não de forma zombeteira, mas de forma alegre e brilhante — com diversão. Continuar lendo

V/H/S (Idem, 2012)

vhs

Direção: Matt Bettinelli-Olpin, David Bruckner, Tyler Gillett, Justin Martinez, Glenn McQuaid, Chad Villella e Ti West

O que mais chama a atenção acerca deste estranho filme intitulado V/H/S é uma loucura só: trata-se de um longa-metragem found footage (ou mockumentary) construído a partir de retalhos, e dirigido por pessoas que odeiam a técnica de filmagem proposta pelo subgênero em foco. Não duas pessoas, nem três, nem quatro (esta é a quantidade de roteiristas). Foram SEIS pessoas que ditaram as regras para esta nova revelação horrorífica saída dos EUA — país que anda demonstrando cada vez mais um abismo de falta de ideias para o gênero Terror. Produções independentes sempre tiveram algo a mais para oferecer — principalmente no que diz respeito à ousadia no tratamento de seus argumentos —; bem que V/H/S consegue ser ousado em tudo que quer propor, o que faz dele um projeto mais que fascinante, ainda que caia em várias armadilhas oriundas de sua estética.

O found footage é a sensação do momento. Se nos anos setenta e oitenta os assassinos em série tomaram conta das telas sob vários métodos diferentes (seja pelo Giallo ou pelo Slasher), dos anos 2000 para cá ganhamos o found footage. Apesar de o estilo ter estourado em meados de 2007, vale salientar que Holocausto Canibal (1980) e A Bruxa de Blair (1999) já tinham há muito utilizado essa técnica — e por que não o próprio A Tortura do Medo (1960), de Michael Powell? Eis que finalmente temos mais uma marca de uma geração do cinema de horror: a da procura do realismo extremo através de um proposital estilo despojado. É relativamente fácil fazer um filme assim; aliás, quase não se preocupam com gloriosas técnicas de montagem ou outras regalias do tipo. Tudo é feito para dar a impressão de que o que se passa em tela realmente aconteceu — não é à toa que chama-se “found footage”. Continuar lendo